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A minha experiência em aldeias ecológicas
é bastante reduzida. No entanto, aceitando o desafio vou tentar
descrever as minhas pequenas experiências porque podem ser de
interesse para outros...
O meu primeiro contacto com uma aldeia ecológica
foi em Findhorn, Escócia, em setembro de 1997. Visitei Findhorn,
na expectativa de encontrar uma comunidade, já ouvira falar
de comunidades e da vivência comunitária, mas os modelos que
conhecia podiam dizer-e que se limitavam a ideias “preconceituosas”
tais como: a comunidade religiosa fechada (v.g. os mosteiros
franciscanos), os ashrams indianos ou as comunidades “free lifestyle”
(como as comunidades hippies).
Quando cheguei a Findhorn deparei-me com um
espaço “normal” que mais me lembrava uma mistura de uma aldeia
com um parque de campismo... Porém, o que mais mexeu comigo
foi o facto de encontrar um local onde as minhas ideias e ideais
eram vistos serem postos na prática por pessoas que eram de
uma simpatia extraordinária.
A organização dentro de uma “anarquia natural”
também me espantou (como latino com uma educação britânica),
isto porque, dentro de uma aparente falta de estruturas e organização
(centralizada, como é típico nos modelos latinos) encontrei
uma estrutura quase natural e familiar aonde todos sabiam o
que deviam fazer e quando. Na verdade, as coisas estavam organizadas
de tal forma que mais parecia que as pessoas naturalmente sabiam
o que fazer. E ao invés de haver regras, simplesmente fazíamos
aquilo que os outros faziam.
Fomos recebidos pelo “guest center” que nos
cobrou as diárias e nos explicou que também teríamos que trabalhar
ou da parte da manhã ou da parte da tarde (à nossa escolha)
em três áreas (também à nossa escolha), eram elas: arranjos
domésticos; agricultura e jardim. Depois de ter escolhido os
arranjos domésticos foi-me dito para na manhã seguinte me apresentar
em dado local.
Quando aí cheguei deparei-me pela primeira
vez na vida com um “exercício” bastante interessante: todos
dávamos as mãos e partilhávamos com os outros e em grupo no
nosso estado ( o ambiente era tal que as pessoas partilhavam
realmente o que sentiam), depois disso pedia-se a todos que
se centrassem no seu mais intímo, partilhando o dom da vida.
Só depois se organizava o trabalho para esse
dia, leia-se meio dia (ou uma manhã ou uma tarde). A meio da
manhã ou da tarde era “obrigatória” uma paragem durante a qual
ninguém podia trabalhar: o tea/coffee break . Insistia-se numa
“quebra” do trabalho e na confraternização.
O trabalho era “tanto” que eu (habituado a
não ficar parado) acabei por fazer os dois turnos de manhã fazia
os arranjos domésticos, tal como devia, e de tarde ia para as
estufas ajudar na agricultura, inclusive ouve um dia que fiz
três turnos, uma vez que ajudei também na elaboração do almoço.
No meio de “tanta” actividade acabei por ter tido tempo de participar
nos trabalhos espirituais realizados de manhã, a meio do dia
e de tarde.
Nessa visita, acabei por falar com uma das
responsáveis da eco-village em Findhorn que me explicou o conceito
de aldeia ecológica e me deu apoio moral para a construção de
uma comunidade (ao dar umas quantas dicas). Claro que me contou
que nem tudo eram rosas, nomeadamente chamou a tenção para a
falta de uma estrutura centralizada que ultrapassasse as demoras
dos comités de decisão.
Nunca o trabalho custou, o ambiente e os colegas
de trabalho não deixavam ver o trabalho como tal mas como uma
experiência profunda. Uma experiência de amor. Esta foi uma
das experiências mais ricas da minha vida. Em boa verdade, tendo-me
a minha mãe telefonado o único comentário que fiz foi: “estou
no paraíso”.
A minha segunda experiência comunitária foi
muito mais curta e deu-se na comunidade italiana de Ananda,
perto de Assis. É uma comunidade muito mais espiritualizada
com uma filosofia yogi assumida mas com uma grande abertura
espiritual de estilo “new age” . Foi uma experiência muito mais
enriquecedora do ponto de vista prático (para quem, na altura,
tinha como objectivo de vida construir uma comunidade em Portugal).
Tudo começou via telefónica na preparação da viagem e da visita,
a atenção e o carinho com que éramos tratados foi sempre enorme.
Passou pelo convite a participarmos nas suas actividades espirituais
(era um Domingo, e há pessoas de longe que aí se deslocam de
propósito). Durante o almoço para o qual fomos convidados, assistimos
à despedida de um dos grupos que aí se deslocam para cursos
e a satisfação das pessoas juntamente com uma ligeira tristeza
por partirem. Aí descobrimos que a comunidade (embora já tivesse
os seus cursos preenchidos para o ano seguinte) vivia não das
receitas dos cursos e das estadias mas sim da loja e do catálogo
que vendia produtos com características específicas (uns importados
outros feitos na comunidade).
No computo final foi uma óptima experiência.
Filipe
Espinha |