Ecoaldeias
e comunidades sustentáveis
Fazer a diferença
Por Pedro Macedo
Gostaria de viver num local onde as pessoas,
mesmo aquelas que não conhece, estão sempre dispostas a ajudar?
Onde as preocupações com o ambiente não são palavras vãs? Onde
é possível participar facilmente e de uma forma efectiva nas
decisões que são tomadas e que afectam a todos? Um local pacífico,
onde não é preciso ter medo de assaltos? Está pronto para mudar
de vida?
Se respondeu que sim às perguntas anteriores
e ainda não conhece as ecoaldeias, é altura de ler este artigo
e partir à descoberta. Não porque sejam locais paradisíacos,
mas porque são como que “laboratórios sociais” onde grupos de
pessoas esforçam-se honestamente para construir uma alternativa
viável ao estilo de vida predominante na sociedade actual. Locais
inspiradores onde é possível recarregar energias.
Uma busca pessoal, com arranque
esotérico
Já não me lembro do meu primeiro contacto com
o conceito de “ecoaldeia”. Sei que buscava um local diferente,
alternativo, onde existisse um forte espírito de comunidade
e respeito pela ecologia. Nessa altura a internet começava a
ficar interessante e acessível e acabei por ir parar a um local
que anunciava uma rede de ecoaldeias. Entusiasmado acabei por
ir visitar os dois projectos “registados” em Portugal, a Aldeia
Ecológica Amarna e a Tamera.
Assim, em Março de 2000, rumei à Vila Viçosa
para participar na Festa da Primavera da Amarna. Aqui conheci
um grupo de cerca de 30 pessoas que em 1992 compraram um terreno
em conjunto. Provenientes principalmente de Lisboa, aqui encontravam-se
nos dias livres para conviver, partilhar e realizar actividades
espirituais associadas ao Movimento Nova Era (grupo Rosa-Cruz).
Em 1999 criaram uma cooperativa e encontrei-os ainda em fase
embrionária, já com alguns pré-fabricados e um templo construídos,
tentando decidir pelo modelo de comunidade espiritual fechada
e/ou ecoaldeia (um projecto mais aberto). Soube entretanto que
a partir de Agosto de 2001 passaram a contar com um grupo de
residentes permanentes desenvolvendo vários projectos entre
os quais habitações ecológicas (casas em fardos de palha), energias
alternativas (produção e comercialização de fogões solares),
uma horta biológica, uma clínica de medicinas alternativas e
uma loja de produtos naturais e biológicos.
Ainda um pouco assustado pelos intensos rituais
esotéricos, aventurei-me em Abril até à Tamera, situada no Monte
do Cerro, perto de Odemira. Aqui encontrei um grupo de mais
de 50 alemães, austríacos e suíços a viver num terreno de mais
de 130 hectares de um Alentejo cheio de cores e cheiros, para
onde se mudaram na Primavera de 1995.
Os laços comunitários que unem os "tamerianos"
são muito fortes, reforçados através do "fórum". Sentados
em círculo, abrem-se os corações e cada um diz o que lhe vai
na alma, recebendo impressões dos restantes. Assim consegue-se
uma grande transparência e ficam por terra todos os complexos,
preconceitos, intrigas... se alguém tem um problema todos tentam
ajudar. O dia começa com uma pequena reflexão e uma dança ao
ar livre. Muitas vezes as refeições são tomadas numa cozinha
comunitária.
Os princípios ecológicos estão presentes na
alimentação, nos painéis solares que rivalizam com as muitas
peças artísticas espalhadas pelo espaço, no tratamento por plantas
das águas residuais... Assumem-se como um “Biótopo da Cura”
que apresentam como uma “comunidade composta por humanos, animais
e plantas, onde todos vivem em comunhão complementando-se mutuamente
nas suas forças vitais, criando um espaço onde os seres vivam
sem o condicionamento do medo ou da violência”. O Instituto
para a Paz Global, aqui fundado, assume o princípio de que é
possível uma espécie de litopunctura, acupunctura ao nível planetário
que, através da criação de “aldeias pela paz”, estabeleça uma
nova cultura não violenta. Promovem a quebra de barreiras e
dogmas, nomeadamente os sexuais, e desenvolvem uma forte actividade
política em prol da paz liderada espiritualmente por Sabine
Lichtenfels e Dieter Duhm.
Para 2003 têm uma agenda cheia de eventos com
muitas possibilidades de participar activamente na construção
do projecto, de cursos de equitação onde é explorada a relação
entre os homens e os animais, a uma universidade de verão, este
ano com o tema "Movimento por uma Terra Livre". Estes
eventos, a par de ajudas de amigos e simpatizantes, permitem
viabilizar financeiramente o projecto, ainda a caminho da sustentabilidade.
Ainda assim alguns dos membros são “obrigados” a passar dois
ou três meses por ano na Alemanha, onde retomam temporariamente
as suas antigas profissões e obtêm o rendimento necessário para
uma vida frugal no restante período.
Se a forem visitar, tentem ficar na “casa de
hóspedes” onde podem ter o prazer de conhecer a Irma e as suas
fantásticas refeições.
A oportunidade perdida da
Expo98
Em 2000 decorreu a exposição mundial em Hannover
com o tema Humanidade – Natureza - Tecnologia. Ao contrário
da Expo98, foi de facto a “última exposição do século” e teve
o mérito de promover a construção de uma zona habitacional verdadeiramente
exemplar e sustentável. Em Kronsberg foram construídas de raiz
habitações para cerca de 10.000 pessoas , seguindo o modelo
de cidade compacta, interligando a cidade e o campo, com tecnologias
de construção de baixo consumo energético (30% menos do que
o usual foi o standard adoptado), gestão adequada dos resíduos
e dos recursos hídricos, com a água a circular de forma natural.
A qualidade de vida e os critérios ambientais foram aplicados
a todos os projectos, e não só a um ou dois como em Lisboa.
Foi promovida uma elevada diversidade social, em termos económicos
e culturais, grande número de espaços verdes e uma quinta de
produção biológica, bem como a produção local de energia (dizem
produzir menos 60% de CO2 comparativamente a uma zona habitacional
“normal”). A vida em comunidade é promovida através da criação
em todos os quarteirões de espaços comunitários para actividades
sociais. A comunicação e educação ambiental é sistemática. Existe
um moderno sistema de transportes públicos e é promovido o “car-sharing”
(partilha de automóveis).
Para mim foi a descoberta de um diferente modelo de ecoaldeia,
surgido não de um grupo de pessoas que decide juntar-se e mudar
de vida, mas de uma iniciativa estatal, um projecto moderno
e tecnologicamente avançado, para um elevado número de pessoas,
ecologicamente e socialmente interessante.
Aproveitando a deslocação à Alemanha, visitei
Lebensgarten (“Jardim da Vida”), uma das ecoaldeias pioneiras
e fundadora da rede mundial de ecoaldeias, considerada projecto
modelo pela Expo2000. Uma antiga área militar de quatro hectares
foi “ocupada” por uma comunidade onde os princípios da ecologia
e os sentimentos de segurança são os temas centrais. Cerca de
80 adultos e 50 crianças vivem em 50 casas individuais e a impressão
inicial causada nos vizinhos – a de estarem a criar uma seita
– foi já ultrapassada.
Aqui participei nas famosas danças comunitárias
em círculo, características de Lebensgarten e praticadas em
muitas ecoaldeias por todo o mundo. Tive ainda a oportunidade
de conhecer um canadiano que tinha vendido todas as suas posses
para viajar pelo mundo, em busca de ideais comunitários (neste
momento está na Nova Zelândia pela quarta vez).
Na
quinta “Wester Lawrenceton” pertencente a Pam e Nick Rodway
(na imagem Nick Rodway partilha a sua experiência de ambientalista
activo desde os anos trinta) produz-se o premiado queijo
“carola”, com produção biológica e curado em whisky. O
leite é proveniente de vacas escocesas, adaptadas ao clima
local: como não são sobre-exploradas têm metade da produtividade
“normal” mas possuem o dobro da longevidade. Num esquema
de CSA (Community Supported Agriculture) que interliga
consumidores e produtores, é possível comprar-se uma “acção”
de uma vaca específica, recebendo-se em troca o seu leite,
queijo produzido a partir dele e mesmo o estrume para
servir de fertilizante. |
Findhorn – um paraíso caótico
junto ao Mar do Norte
Mas foi em Março do ano passado que finalmente
pude experimentar o que é viver numa ecoaldeia: juntei-me a
pessoas de todo o mundo em Findhorn para participar no “Ecovillage
Training”.
A comunidade de Findhorn é o que se pode dizer
uma ecoaldeia emblemática, localizando-se no nordeste da Escócia,
na confluência da baía de Findhorn com o Mar do Norte (não longe
de Inverness e do conhecido monstro), onde raridades ornitológicas,
veados, golfinhos e focas são residentes fáceis de encontrar.
A história da comunidade começa no início dos
anos sessenta, quando três adultos e três crianças instalam-se
provisoriamente numa caravana. Eileen Caddy comunica com os
espíritos da natureza e começa a receber orientações que, juntamente
com a tenacidade e o entusiasmo de Peter Caddy, levaram à criação
de um jardim surpreendente na areia, com couves dignas do Entroncamento.
Em época de “hippysmo”, muitas outras pessoas apareceram para
partilhar a magia e uma pequena comunidade cresceu rapidamente.
O parque de caravanas foi comprado, juntamente
com quintas, um colégio e vários outros terrenos. Com Peter
entretanto afastado da comunidade e já falecido e Eileen “aposentada”
do seu papel de guia espiritual desde os anos setenta, cerca
de 450 pessoas vivem hoje numa comunidade com uma vitalidade
surpreendente. Se as primeiras habitações eram caravanas, hoje
em dia constróem-se moradias seguindo critérios ecológicos rígidos,
geridas por autênticas empresas profissionais. O deserto árido
inicial deu lugar a um imenso jardim arborizado. As águas são
tratadas através de tecnologias inovadoras, como as “Living
Machines”.
Em
Findhorn as águas residuais da comunidade são tratadas
pela primeira “Living Machine” instalada na Europa. Trata-se
de uma série de tanques que reproduzem de forma intensificada
os processos de reciclagem encontrados na natureza, recorrendo
a plantas, animais e micro-organismos vorazes. |
A energia vem de painéis solares (foi criada
uma empresa de produção de painéis na comunidade) e de um aerogerador.
A alimentação, em grande parte proveniente de quintas da comunidade,
com projectos que aproximam os produtores e os consumidores,
é fundamentalmente vegetariana e de produção biodinâmica e biológica.
Existe uma escola do ensino preconizado por Rudolf Steiner e
um centro de saúde holístico. Já instalaram o sistema LETS (“Local
Exchange Trading Scheme”), em que por exemplo se trocam massagens
por cenouras, e estão a criar um banco e uma moeda próprios.
Foi aqui que nasceu o premiado projecto “Trees for Life” que
promove a recuperação da floresta autóctone da Escócia.
Mas o que mais impressiona é a intensa actividade
cultural e social desta comunidade. Todas as noites ocorre pelo
menos uma actividade, seja no enormíssimo “Universal Hall”,
num dos santuários ou locais especiais dispersos pela área ou
ao ar livre, de espectáculos teatrais a colóquios, danças e
cantares, festas, sessões de meditação, encontros de homens,
encontros de mulheres, etc. etc. Pode-se optar por uma tertúlia
no café ou um banho colectivo na “hot tub” (antigo pipo de whisky,
de grandes dimensões, repleto de água quente e apenas com as
estrelas como tecto).
Estas
casas foram construídas em Findhorn recorrendo a antigos
barris de whisky. A originalidade da arquitectura e dos
materiais utilizados é uma constante nas ecoaldeias, bem
como o respeito pelos mais elevados critérios ecológicos. |
As actividades comunitárias são muitas, da
preparação de refeições colectivas ao arranjo dos jardins. Possuem
alguns rituais característicos, como o “attunement”: antes das
refeições ou de uma qualquer outra actividade conjunta, dão-se
as mãos em círculo e promove-se a sintonia, ao nível do indivíduo,
do grupo e deste com a natureza e a espiritualidade.
Nas
ecoaldeias a confiança das pessoas é reforçada pelo apoio
mútuo. A preparação das refeições em comunidade é um momento
único de festa e convívio, independente de se ser do Japão
ou da Eslovénia (na imagem participantes do “Ecovillage
Training” de 2002 em Findhorn). Dois objectivos permanentemente
acarinhados: desenvolvimento pessoal e partilha solidária. |
A estrutura organizativa de toda a comunidade
é incrivelmente complexa, misturando a criação de consensos
(aos quais se dedica o tempo que for necessário, recorrendo-se
a múltiplas técnicas desenvolvidas localmente), a projectos
assentes em protagonistas individuais e uma grande dose de anarquia.
Curiosamente tudo isto localiza-se a poucos
metros de uma base militar britânica, de onde neste momento
deverão estar a partir muitas aeronaves para o Iraque.
“Ecovillage Training” – Uma
comunidade dentro da comunidade
Relativamente ao “Ecovillage Training”, trata-se
de um fórum prático para a aprendizagem e o desenvolvimento
de planos de acção direccionados para a promoção de ecoaldeias.
É desenvolvido anualmente em parceria pela Fundação de Findhorn
e a Rede Europeia de Ecoaldeias, tem a duração de um mês em
regime intensivo e aborda desde conceitos a temas como a promoção
da participação e criação de consensos, resolução de conflitos
e permacultura, economia social e construção ecológica, recuperação
ambiental e alimentação saudável. O ambiente é descontraído
e promotor da participação e criatividade de cada elemento,
numa intensa partilha de experiências e ideias entre todos,
com abundância de jogos, passeios na natureza, actividades práticas
e oportunidades de experimentar a vida em comunidade.
Pessoas
de todo o mundo juntaram-se em Março de 2002 na Escócia
para aprender a criar novos modelos de organização social.
A acção de formação, realizada anualmente, é promovida
pela Fundação de Findhorn e pela Rede Europeia de Ecoaldeias.
Existe a possibilidade destas entidades apoiarem financeiramente
os participantes. |
Em Findhorn promovem anualmente cerca de 200
cursos diferentes a que assistem 3.500 pessoas de todo o mundo,
às quais se acrescentam 10.000 visitantes. O grupo no qual tive
a sorte de me incluir integrava islandeses de uma comunidade
de apoio a pessoas com problemas mentais, japonesas a viajar
pelo mundo em busca de projectos comunitários inovadores (com
subsídios do governo!), empreendedores da África do Sul responsáveis
por projectos internacionais de introdução da permacultura em
aldeias, activistas sociais e ambientais da Birmânia, responsáveis
por projectos de trabalho com povos indígenas da Costa Rica,
plantadores globais de árvores do Canadá (o Matt recentemente
atingiu o score pessoal de plantação de 130.000 pequenos pulmões),
eremitas de ilhas isoladas da Tasmânia, educadores de aldeias
perdidas na Índia, coordenadores de redes de ecoaldeias da Dinamarca,
gestores de projectos europeus da França, para além de pessoas
da Eslovénia, Holanda, Estados Unidos, Inglaterra, Espanha,
Finlândia, Malásia, Hawai, Suiça e Escócia, de jardineiros de
comunidades budistas a jornalistas. Mais de 30 pessoas que no
final do treino formavam uma enorme família, com uma caixa de
ferramentas bem apetrechada para a implementação de projectos
comunitários sustentáveis a todos os níveis.
De volta a Portugal
Em 2002 visitei ainda a ecoaldeia Seara, localizada
a cerca de 30 minutos do Porto, perdida nas serras de Gondomar,
não longe do rio Douro. É uma pequena comunidade de 7 adultos
e 6 crianças, pessoas interessadas na macrobiótica e ovnilogia.
Vivem em casas de madeira e possuem painéis fotovoltaicos, uma
horta biológica, uma piscina e promovem múltiplos “workshop’s”.
Os miúdos não apanham vacinas e têm as aulas em casa e não na
escola.
Mas afinal, quem são os
ecoaldeões?
É impossível traçar um retrato tipo de pessoas
e comunidades, cuja maior virtualidade é exactamente a diversidade
e o respeito pela diferença.
Mas podemos dizer que, muitas vezes, cada vez
mais vezes, em filas intermináveis de trânsito, em frente ao
televisor que vomita violência, perante o vizinho que atira
o lixo para o nosso quintal, no meio do caos urbanístico, das
correrias loucas de todos os dias, na fila da farmácia para
comprar antidepressivos, no preenchimento de infinitos impressos
burocráticos, perante o frango no espeto ou o vidro quebrado
do carro... alguém questiona-se sobre o sentido da vida. E perante
uma insuportável ansiedade, a nostalgia da vida em família e
em contacto com a natureza assume o controlo e decidem “deixar
tudo”, começando um novo projecto de vida, comunitário e ecológico.
Umas procuram tribos copiadas dos índios americanos,
querendo vidas simples em tendas ou grutas, e outras condomínios
ecológicos fechados, com habitações sofisticadas e com todos
os confortos modernos.
O que têm em comum todos os projectos que visitei?
A comida, que foi sempre da melhor do mundo, o brilho nos olhos
de quem busca a utopia e se maravilha com o nascer da lua, o
calor humano de quem recebe de braços abertos, o sentimento
de liberdade, a partilha assente em princípios comunitários.
Uma revolução em curso
Muitas vezes a resposta à inquietação interior
vem tarde de mais. É já em desespero que se tomam decisões abruptas
e precipitadas, que se decide largar o emprego de um dia para
o outro e ir viver para o campo, sem nada planeado. Pessoas
muitas vezes vulneráveis em termos psicológicos, seguindo o
primeiro guru que aparece com palavras de salvação fácil.
Mas existem também muitas outras pessoas que
no lugar de mudanças radicais, optam por lentamente mas de forma
decidida, incorporar princípios comunitários e ecológicos nas
suas vidas. Inscrevem-se em associações, programas voluntários
e sessões de ioga, lutam por um jardim para o bairro, optam
pelo biológico e pela simplicidade, reduzem o consumo e aumentam
a qualidade de vida, manifestam-se contra a guerra, reinventam
tempo para os amigos e as caminhadas na natureza, deixam empregos
bem remunerados por outros mais compatíveis com as suas aspirações
interiores, escrutinam rótulos de embalagens e sites na internet.
Em suma, querem transformar a sua família, o grupo de amigos,
o bairro ou a freguesia numa imensa ecoaldeia feliz. E acreditam
que podem fazer a diferença.
Pedro
Macedo |